Convite à filosofia analítica

Resumo

Neste artigo objectivamos apresentar algumas especificidades da Filosofia Analítica constratando˗a com outras práticas filosóficas. Para tanto, recorremos a uma metodologia essencialmente bibliográfica e, por este caminho, demonstrámos que esta maneira de fazer Filosofia ressuscita e dá continuidade à tradição socrática, uma vez que procura, explicitamente, dialogar com os filósofos, mortos e vivos, e avaliar cuidadosamente as suas respostas aos problemas filosóficos, porque, tal como outros profissionais, advoga que os filósofos também cometem erros, diferentemente da teoria da incomensurabilidade, segundo a qual os filósofos, por tratarem cada um de coisas de forma subjectiva, o seu trabalho não pode ser avaliado criticamente, restando aos leitores apenas a perspectiva e a atitude estéticas perante seus textos.   

Palavras˗chave: Filosofia Analítica; Incomensurabilidade; Atitude Estética; Atitude Crítica.

1. Introdução

Um convite é um apelo dirigido a determinadas pessoas para participar em um evento: pode ser um casamento, uma festa de aniversário, um debate, e assim por diante. Para que os convidados anuam, é necessário que o convite seja claro e apresente as razões de ser do evento, discrimine o local e a maneira de participar no evento.

Ora bem, neste ensaio procuraremos apresentar as razões de ser da Filosofia Analítica (doravante designada por FA), os locais onde encontrá˗la, o público-alvo e as maneiras de praticá˗la. Para começar, gostariamos de caracterizar, em linhas gerais, a FA.

2. Especificidade da Filosofia Analítica

Mais do que uma corrente filosófica, a FA é uma maneira particular de fazer Filosofia, e caracteriza˗se, sobretudo, pelo estudo minucioso dos problemas, teorias e agumentos da Filosofia. E, em vista disso, dá uma atenção especial ao significado das palavras utilizadas nas definições e explicações, de igual modo, valoriza muito a estrutura argumentativa e os argumentos em si. Outra especificidade desta Filosofia é a cooperação epistémica, também designada por "espírito científico" (Recanati, 2004).

A cooperação epistémica é uma necessidade que surge para combater o mito do pesquisador isolado e instaurar um clima salutar de discussão aberta de ideias com vista ao aperfeiçoamento da pesquisa pela verdade. Neste sentido, e para resumirmos, são características da FA, as seguintes: "1. a clareza e a sobriedade; 2. o recurso aos argumentos; 3. a precisão, a minúcia e o carácter explícito das teses e dos argumentos; 4. a recusa de reduzir a Filosofia à história da Filosofia" (Recanati, 2004, p. 7).

3. A Incomensurabilidade

Se a FA é uma alternativa, segue˗se que além dela, há outras formas de se fazer Filosofia. Que formas são essas? Serão todas elas defensáveis e correctas? É o que veremos a seguir. Começamos assim por atacar uma tese há muito cultivada por vários aprendizes de filósofo, mais experientes e menos experientes. Essa tese defende que "a Filosofia, por ser uma actividade subjectiva, não pode ser avaliada, porque os filósofos falam de coisas diferentes. Ora, se falam de coisas diferentes, não temos como avaliar o que dizem, restando˗nos apenas a interpretação estética ou outras afins". Em termos técnicos, a tese recebe o nome de incomensurabilidade.

A primeira crítica que lançamos a essa tese é uma questão persuasiva: a tese da incomensurabilidade é uma tese filosófica? Em caso afirmativo, estará a tese da incomensurabilidade certa sobre o que afirma? Se o defensor da incomensurabilidade afirmar que o que diz acerca da actividade dos filósofos é verdade, certamente que terá de apresentar razões para que assim seja e não se limitar a dizer que assim é, porque não estaria a fazer Filosofia, mas discursos dogmáticos. Ora, ao apresentar as razões da sua tese, pode fazê˗lo da melhor ou da pior maneira, ou seja, pode apresentar boas ou más razões. Portanto, sem o defensor da incomensurabilidade dar˗se conta já estará a fazer juízos de valor, contrariando a intenção da tese que pretende sustentar.

Além disso, tendo a Filosofia, tal como a Ciência, um interesse primário pela verdade, não faz sentido praticá-la de qualquer maneira, sob quaisquer procedimentos, sem ter em consideração referenciais raciocinativos partilhados e partilháveis, sendo estes, aliás, os garantes da continuidade do diálogo e da possibilidade de aperfeiçoamento da espécie humana nas mais variadas dimensões.

Percebe˗se, desse modo, que há razões óbvias para se avaliar o trabalho dos filósofos, porque estes, como outros entes humanos, podem fazer bem ou mal o seu trabalho, devendo, portanto, ser submetidos às avaliações constantes. Acresce que ao longo da história da filosofia verica-se, amiúde, discussões entre filósofos de diferententes escolas ou correntes, demonstrando a necessidade de abertura ao diálogo com os pares. Neste sentido, "quem não escreve e não se põe para a crítica, não faz filosofia. Quem escreve difícil, complicado, também não se põe para a crítica. No fundo, recusa a filosofia, pois a filosofia, desde seu início, funciona como diálogo… (Ghiraldelli, 2006, p. 212)."

3.1. Efeitos Pedagógicos no Contexto Angolano

O efeito pedagógico dessa maneira de entender a Filosofia, no contexto angolano, huilano em particular, é a posição de muitos professores de Filosofia que alegam que as provas de Filosofia não se deviam fazer acompanhar de correção modelo, porque em Filosofia o que se avalia são as posições subjectivas dos alunos, o seu arcabouço discursivo e parafrasial. Será esta uma postura correcta?

Acreditamos que não. Conquanto a Filosofia tenha uma especificidade peculiar, os critérios para avaliar os resultados das actividades dos alunos devem ser os mais objectivos possíveis sob pena de se inviabilizar o progresso académico. Estes critérios são, entre outros, a forma argumentativa e o valor de verdade das proposições que a compõem, no caso de questões propriamente filosóficas. Se se pedirem aos alunos questões meramente históricas e definições ou fórmulas lógicas, o crítério será o habitual, também utilizado em outras disciplinas, isto é, a correcção modelo deverá indicar as respostas correctas. E, mesmo no primeiro caso, uma vez que existem formas argumentativas válidas e inválidas, é possível, aquando da correcção, verificar se as regras básicas da lógica foram cumpridas, sem descurar a imaginação filosófica dos alunos, também impulsionada pelo cumprimento dessas regras.

4. Filosofias Não˗Analíticas

Agora podemos avançar e dizer que além da maneira analítica há as formas não analíticas. Estas dão mais atenção aos aspectos estéticos e psicológicos dos textos produzidos pelos filósofos. A actividade interpretativa e a paráfrase são muito comuns nestas formas de fazer Filosofia. Do ponto de vista pedagógico, aos alunos é solicitada a expansão criativa do que os filósofos disseram. Outra marca desta maneira é a produção de sistemas filosóficos, muitas vezes contendo proposições contraditórias. Mas como o objectivo é alcançar a psique e as emoções dos leitores ou ouvintes, e não tanto convidá˗los a reflectir seriamente sobre a correcção ou incorrecção dos argumentos, os objectivos são muito bem alcançados.

Enquadram-se nestas filosofias, entre outras, a fenomelogia, o existencialismo e a hermenêutica. Conquanto representem verdadeiras obras do génio criador, no campo filósofico, devem ser analisadas e criticadas cuidadosamente, procurando sempre saber se o que cada perspectiva apresenta é plausível ou não. Dado que muitos pensadores destas correntes raramente apresentam argumentos explícitos, mas antes, conceitos e expressões pomposos, seus leitores dificilmente desenvolvem o senso crítico indispensável ao exercício da actividade filosófica.

De forma precisa, são características gerais destas filosofias, as seguintes: a ausência de argumentos explícitos; o recurso constante à paráfrase e à criação de expressões pomposas (muitas vezes vazias); a criação de sistemas; a recusa ao diálogo com os pares (manifestando-se em textos complicados e ininteligíveis), a defesa da subjectividade, do carácter relativo e histórico da verdade; e, a tendência de reduzir a Filosofia à história da Filosofia.  

5. O Carácter Crítico da Filosofia

Será que foi sempre assim que se praticou Filosofia? Será que os fundadores dessa cultura pretendiam, com as suas intervenções, impressionar, mexer com a sensibilidade dos que se disponibilizavam a ouvi˗los tal qual os bobos? É óbvio que não. No começo, a Filosofia «amor à sabedoria» consistiu na tentativa de superação da atitude dogmática e iniciática. Esta tentativa levou os primeiros filósofos a organizar˗se em escolas para, em conjunto, discutir abertamente os problemas da origem do mundo, dos valores, da posição do homem no universo, do conhecimento e da melhor forma de organizar a convivência política, entre outros.

A frase socrática «a vida só vale a pena ser vivida se pensarmos no que estamos a fazer», revela, desde o começo, o carácter crítico da Filosofia. Porém, com o passar dos tempos, por conta de incompreensões de diversas ordens e por um recuo na análise crítica dos conceitos e argumentos, passou˗se a cultivar práticas como a atitude estética e poética, deixando de lado a atitude crítica e argmentativa por excelência. Não se pretende obliterar estas atitudes, mas dar primasia à verdade no execrício da actividade filosófica.

Dito isso, podemos avançar e dizer que a FA é uma tentativa de ressuscitar o espírito socrático de filosofar, convidando os interlocutores a rever, criticamente, as suas crenças, os seus discursos, hábitos e práticas. E, em última instância, é essa atitude crítica, ética e epistémica que nos diferencia de outros animais e nos coloca na posição de entes inteligentes, criativos e perfectíveis.

Diferente da investigação científica que recorre a procedimentos empíricos e formais para fundamentar o seu ofício, desprovida destes instrumentos, só resta ao aprendiz de filósofo prover˗se de instrumentos lógico˗argumentativos do seu ofício e, abertamente, entrar no jogo e participar no debate filosófico.

6. Formulação do Convite ao Longo dos Tempos

Este convite tem sido formulado ao longo dos tempos por um bom número de filósofos antigos e contemporâneos. Recanati precisa alguns locais onde podemos encontrá˗la:

à questão “o que é a filosofia analítica?” pode responder-se com segurança que é a tradição a que pertencem Frege, Russell, Moore, Wittgenstein (o primeiro e o segundo), os neopositivistas, os lógicos polacos da escola de Lvov-Varsóvia, Popper, Quine, Goodman, os filósofos da linguagem comum, Putnam, Rawls, Kripke, etc., ou ainda que é a corrente filosófica actualmente dominante nos países anglo-saxónicos e, mais geralmente, no mundo (Recanati, 2004, p. 2).

Embora dominante nos países anglo˗saxónicos, a FA tem sido praticada por filósofos de diferentes geografias e culturas e pode ser praticada por todos quantos estejam interessados em descobrir a verdade das coisas.

Recado Final: Adesão Consciente

Finalmente, para praticar é necessário familiarizar˗se com a educação filosófica e começar a pensar por si próprio, ou seja, com a própria cabeça. Dado o carácter argumentativo da Filosofia, a Lógica apresenta˗se como um instrumento imprescindível deste ofício.

Uma vez que o objectivo da Filosofia é, conforme dito por Aquino "a verdade das coisas" (Murcho, 2003, p. 27), e não o que nos faz sentir˗se confortáveis, é crucial, nesta fase inicial e ao longo da caminhada, cultivar a integridade intelectual, que tem a ver simplesmente com honestidade, modéstia e rigor no exercício deste ofício.

Autoria,  Eunício Cassola


Referências Bibliográficas 

Murcho, D. (2003). O Lugar da Lógica na Filosofia. Lisboa: Plátano Edições Técnica.

Recanati, F. (2004). Pela Filosofia Analítica, tradução de Fernando Martinho. Crítica. Obtido em 21 de Setembro de 2021. Disponível em:  de https://criticanarede.com/filos_pelafil.html

Ghiraldelli Jr., P. (2006). Filosofia da Educação. São Paulo: Ática


Comentários

  1. Há uma diversidade de modos de conceber o trabalho filosófico, dentre eles, a filosofia analítica.

    Um aspecto importante que distingue a filosofia analítica das outras é a atitude perante a ciência. As filosofias não - analíticas quase não dão atenção aos avanços da ciência e o modo como estes avanços influenciam o trabalho filosófico.

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