Uma ideia de racionalidade

                                                                      

                                                                                     A racionalidade é um ingrediente de qualquer atitude epistémica séria e responsável.


Chave:  O que é ser racional?

           O objectivo deste artigo é avaliar uma ideia de racionalidade amplamente partilhada e defender que esta é uma ideia pobre e banal de racionalidade. Pretendo  propor outra ideia que considero mais promissora e plausível para compreender a natureza da racionalidade.

Em Filosofia, o termo racionalidade é usado em dois sentidos diferentes. O primeiro sentido é a chamada racionalidade epistémica ligada à nossa atitude de formar ideias e crenças sobre estados de coisas no mundo, de pensar sobre o mundo. Uma característica marcante da racionalidade epistémica é o interesse pela verdade; quer dizer, queremos formar ideias e crenças verdadeiras sobre o estado de coisas no mundo (Faria, 2018, p.17). O termo epistémico é relativo à Epistemologia, disciplina filosófica que estuda problemas filosóficos do conhecimento, sobretudo a questão da justificação das nossas crenças ou ideias.

Crença é quando pensamos que uma certa ideia é verdadeira. Ideia é qualquer frase com conteúdo verdadeiro ou falso. Por exemplo: acreditamos que a ideia a floresta do Maiombe fica em Angola é verdadeira; há pessoas que acreditam que a ideia a Terra é plana é verdadeira, outros acreditam que é falsa. Estados de coisas no mundo significa que as coisas no mundo são de um modo. Quando dizemos, por exemplo, que a neve é branca, estamos a descrever um estado de coisas no mundo, neste caso, o da neve, e esta descrição pode ser verdadeira ou falsa.

O segundo sentido é a chamada racionalidade prudencial caracterizada pela preocupação em obter benefícios práticos e não a formação de crenças verdadeiras sobre um estudo de coisas no mundo. Ela não conduz à verdade mas a benefícios práticos ou que, de alguma forma, traz algum tipo de vantagem para as nossas vidas, (Faria, 2018, p.17). Por exemplo: um doente aflito que decide correr riscos de tomar o chá de uma raiz esquisita com o objectivo de se ver curado sem se preocupar se há testes experimentais ou provas adequadas para acreditar no sucesso do chá, está diante de uma racionalidade prudencial.

Abordo a racionalidade no sentido epistêmico do termo, porque a considero mais interessante e intelectualmente desafiador, também, porque é a que está amplamente presente na Ciência, na Filosofia e, até, na nossa atitude epistémica quotidiana. É frequente ouvirmos frases como os seres humanos são racionais. Muitas vezes, não se esclarece cuidadosamente a noção de racionalidade ou, quando se procura esclarecer, é uma noção tristemente pobre e trivial no sentido de ser óbvia e de não representar qualquer desafio intelectual. Uma versão desta ideia de racionalidade afirma que ser racional é ser dotado de inteligência e ser capaz de construir raciocínios.

É esta noção de racionalidade que está subjacente àquela ideia que ouvimos frequentemente de que os seres humanos são racionais. Há um argumento que, as vezes, se apresenta para sustentar esta ideia: os seres humanos são racionais, porque os seres humanos pensam e são dotados de inteligência.

Simplificando:  Os seres humanos pensam e são dotados de inteligência;

    Logo: Os seres humanos são racionais. 

       Bem, percebe-se que este argumento não resiste à simples objecção, quando perguntamos se estaríamos dispostos a aceitar que a Química e a Filosofia, por exemplo, são actividades intelectuais racionais, porque os químicos e os filósofos pensam. Isto é tão absurdo que nenhuma pessoa com o mínimo de seriedade intelectual aceitaria tal noção, uma vez que pressupõe afirmar que a Química ou a Filosofia e as nossas atitudes epistémicas quotidianas são a mesma coisa ou operam no mesmo nível, o que dificilmente estaríamos dispostos a aceitar. Ninguém seriamente aceitaria que a Química e a Filosofia são actividades intelectuais racionais, porque os químicos ou os filósofos pensam, dado que, no senso comum e, até, na explicação mitológica os seres humanos também pensam. Porém, é amplamente consensual a ideia de que a explicação dos fenómenos naturais oferecida pela Química é melhor do que a explicação mitológica e a explicação do senso comum. 


          O contacto que os seres humanos têm com o mundo faz com que eles tenham várias experiências de fenómenos naturais e sociais, como: a observação do movimento aparente do sol, a ocorrência de precipitações, observação da ocorrência de marés, o sucesso na agricultura, a ocorrência de seca, de mortes, a saúde, a reprodução humana e tantos outros aspectos do mundo que os seres humanos experimentam. Essas experiências, em conjugação com a curiosidade natural que os seres humanos possuem, fazem com que estes tentem dar sentido a estas experiências através de explicações a fim de compreender o mundo e as experiências que têm dele. É este exercício de procurar produzir entendimento e compreensão da nossa experiência do mundo que exige que superemos aquela noção pobre e inoperante de racionalidade que se limita em pensar sobre o mundo, isto é, ter ideias sobre o mundo. 

Então perguntamos: quando é que os seres humanos são racionais ao pensar sobre o mundo ou procurar produzir compreensão do mundo através de explicações? Eu uso o termo pensar no sentido de formar crenças ou ideias sobre um facto ou estado de coisas no mundo, por exemplo: pensar que a Terra é esférica, que a raiz quadrada de 81 é 9, que roubar é errado, que um baixo PIB agrava o desemprego ou que a delinquência não está ligada à pobreza. A pergunta crucial a fazer é: em que situação ou condição nós, seres humanos, somos racionais ao pensar sobre o mundo ou formar ideias sobre ele? Mais concretamente, quando é que é racional, da nossa parte, pensar que não há qualquer relação entre a queda do PIB e o agravamento do desemprego ou que o Kwanza é o maior rio de Angola? A resposta absurda da noção de racionalidade que examino responderia: os seres humanos são racionais, nesse exercicio intelectual, quando pensam. Como vemos, esta é uma resposta altamente infrutífera. 

          A noção que proponho consiste em considerar a racionalidade como uma atitude epistémica que exige um processo sério e cuidadoso de justificação e de prova que deve orientar o nosso exercício intelectual que visa compreender o mundo. Assim, de acordo com esta noção, a racionalidade não é algo que possuimos ao nascer. Ser epistemicamente racional é procurar ajustar cuidadosa e honestamente as nossas ideias e crenças às melhores provas ou razões disponíveis; ser racional exige, ainda, considerar ou levar a sério as provas ou razões candidatas a derrotar as melhores provas de que dispomos. Ser racional é, também, ser sensível à verdade e à força das razões e provas disponíveis.

Qualquer processo sério de formar ideias ou crenças e pensar sobre o mundo deve adotar ou absorver esta noção de racionalidade que considero promissora por indicar importantes distinções que nos permitem caracterizar e distinguir de maneira judiciosa a Ciência e Filosofia das nossas atitudes epistémicas quotidianas. A nossa atitude epistémica quotidiana geralmente não segue o rigor do raciocínio, não procura ajustar cuidadosamente as ideias às boas provas e quando se apresentam provas estas não são criticamente coligidas, mas são provas isoladas e não como fazendo parte de um conjunto consistente de provas e isso é contrário ao exercício competente da racionalidade. 

Os seres humanos são racionais, mas não o são por natureza, ou seja, a racionalidade não é natural aos seres humanos: exige muito esforço, cuidado e responsabilidade ao formar crenças ou ideias sobre o mundo; exige testar cuidadosa e sistematicamente as nossas ideias. Ser racional não é uma propriedade que temos ou não temos, ser racional, é uma atitude epistémica que podemos adotar ou não ao formar crenças ou ideias quando pensamos sobre o mundo. A racionalidade séria implica revisão sistemática e disposição de mudar de crenças quando as melhores provas e razões assim nos sugerem. Há várias crenças irracionais que algumas pessoas mantêm: a crença de que atravessar a sombra de um gato atrai azares, olhar à noite ao espelho provoca maus sonhos, comer com faca causa pontada, varrer à noite leva a sorte para fora. As pessoas que mantêm estas crenças agem de maneira epistemicamente irracional porque não dispõem de qualquer prova adequada a seu favor. 

Portanto, não faz sentido dizer que os seres humanos são racionais, uma vez que racionalidade não é uma propriedade que os seres humanos têm ou não e pensam sempre de acordo ao que ela indica ou sugere, racionalidade, é uma atitude que os seres humanos adotam ou não ao formar crenças ou ideias para a compreensão do mundo. Somos racionais quando apoiamos adequadamente o que pensamos sobre o mundo em melhores provas ou razões disponíveis, quando temos crenças apropriadamente justificadas. Se nem sempre agimos desse modo, então não somos sempre racionais ao pensar sobre o mundo. 

Eu e o caro leitor, se quisermos ser epistemicamente racionais, devemos procurar ter as melhores razões ou provas possíveis para sustentar as nossas ideias e não ir mais longe do que elas nos permitem mas, isso exige ser paciente, metódico, cuidadoso, responsável e sobretudo honesto; só desse modo é que o exercício bem-sucedido da racionalidade é possível. Qualquer tentativa de exercício competente da racionalidade é uma superação da nossa maneira quotidiana epistemicamente irresponsável de formar ideias sobre o mundo.  

Autoria, Silva Serrote


Referência Bibliográfica

Faria, D. (2018). Lecionação da Filosofia da Religão a partir da Lógica, Metafísica e Epistemologia. Lisboa: Associação de Professores de Filosofia

Murcho, D- (2021). Compreender a Ciência.  Acedido em: 07.05,2022. Disponível em: http://estadodaarte.estado.com.br.

Hurley, P. (2015). Ciência e Superstição, Trad. Álvaro Nunes. Acedido em: 06.05.2022. Disponível em: http://criticanarede.com/pjhurleyciênciaesuperstição.html.

Morton, A. (2004). As crenças e as suas qualidades. Trad. Á lvaro Nunes. Acedido em: 08.05.2022. Disponível em: http://criticanarede.comfilos-crencas.html.


Comentários

  1. Em primeiro lugar, felicitá-lo pelo trabalho!
    O professor levanta uma tese que parece relevante, mas que não discute com profundidade, qual seja a de que o ser humano não é naturalmente racional. Percebo-o mal ou quis chegar aí? Esta é, conforme creio, uma tese muito grande, porque para prová-la precisaria de um edifício argumentativo grande em matéria e consistência. E, aproventando-me da ocasião, poderia dizer-nos o que sabe que lhe garante tanto sobre a sua conclusão?

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  2. Muito bem. Considero que a discussão da tese "os seres humanos não são racionais" não será frutífera se não esclarecermos, primeiro, a noção que temos de racionalidade ou como cada um de nós responde à pergunta "o que é ser racional?". É da resposta a esta pergunta que decorre a minha tese de "os seres humanos não nascem já sabendo ajustar cuidadosamente as suas ideias às melhores provas ou razões que disponham". É esta atitude que o ser humano precisa de aprender primeiro para exercitá-la com competência.

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