O que é filosofia?
Resumo
A presente
reflexão é uma sequência do verbete ofilino, partilhado a 11 de Março do ano em
curso pela Oficina Académica de Filosofia (OFIL). No referido verbete,
procurou-se caracterizar a Filosofia mediante a definição e método de estudo.
Neste trabalho, além desses dois elementos, avançam-se alguns esclarecimentos
inerentes à sua finalidade e relação com as outras formas de conhecimento, com
realce para o científico. Defende-se, essencialmente, o carácter dialógico,
ético-político e educativo do saber filosófico e a necessidade de intercâmbio
entre todas as formas de conhecimento de modo a se alargar a compreensão da
realidade.
A humanidade, ao
longo de sua história, conheceu várias revoluções: a descoberta do fogo, a
agricultura, a invenção da escrita, da internet e do telefone, apenas para
citar algumas. Todas elas contribuíram para a conservação e elevação da
qualidade de vida das pessoas, justificando, em certa medida, a atribuição ao
homem do predicado “animal racional.”
Entretanto, do
ponto de vista da cultura “intelectual”, nenhuma revolução se equipara ao
surgimento da especulação filosófica, pois é, em última instância, graças à
Filosofia, primeira forma de atitude crítica face à realidade, que surgiu a
Ciência, forma de intervenção na realidade mediante procedimentos
essencialmente empíricos e formais. Ora, não faz lá muito sentido a postura
adoptada hoje, em muitos círculos académicos e por muitos cientistas, que
consiste em obliterar a Filosofia do currículo escolar e da vida académica. O
argumento apresentado por muitos desses separatistas consiste simplesmente em
negar o valor da Filosofia. Por valor entende-se muitas vezes os contributos
materiais de uma racionalidade instrumental, os bens palpáveis, consumíveis
pelo corpo, imediatos. Mas se ignora, em abordagens do género, a dimensão
metafísica do homem, ou seja, o facto de que “não só de pão científico vive o
homem.” Para dizer que a complexidade da realidade e da vida humana exigem,
para a sua compreensão, a contribuição de todas as forças cognitivas
desenvolvidas ao longo do tempo, evitando, assim, leituras provincianas,
fragmentárias, dogmáticas e endoutrinadoras.
Nesse sentido,
com vista a uma melhor compreensão do lugar da Filosofia na contemporaneidade,
na sua relação com a Ciência, a Técnica e as crises dos dias que correm, nas
páginas que se seguem procurar-se-á dar resposta a um conjunto de questões que
têm apoquentado muitos estudantes que pretendem ter uma visão alargada,
metódica e crítica do quê, como e para quê da especulação filosófica.
Adiante-se, desde já, que os problemas filosóficos são problemas reais, apesar
de não serem empíricos como o são os científicos. E são reais porque existem
independentemente de os estudarmos ou não. São, entre outros, problemas como os
seguintes:
●
Metafísico: o que é a realidade?
●
Ética: o que fazer para alcançar a
felicidade?
●
Lógico: será que num argumento válido
todas as premissas são verdadeiras?
●
Estético: a beleza é objectiva ou
depende da perspectiva de cada um?
●
Político: quem deve governar?
Realidade,
felicidade, verdade, beleza, poder... não são apenas, como se diz na gíria,
“conversa para fazer o boi dormir”, passatempos, entretenimentos. São
preocupações cruciais para entes-conscientes-de-si, pessoas adultas,
responsáveis e autónomas. Deixar de levantar e procurar responder a essas
questões significa viver irreflectidamente como um cão ou gato que se contenta
com o simples facto de existir.
Ao longo da
história, a pergunta “o que é Filosofia?” conheceu várias respostas e ainda
hoje continua a receber diferentes perspectivas, a depender da escola a que o
filósofo pertence e do seu entendimento acerca da natureza da disciplina. Há
pensadores que ainda defendem que o seu objecto de estudo é a totalidade do
saber. Assim, em muitos manuais de Filosofia encontra-se a ideia de que a
“Filosofia estuda todas as coisas, partindo das causas últimas à luz natural da
razão.” Certamente que essa perspectiva, de origem aristotélica, deve ser
devidamente contextualizada sob pena de se cair num filosofismo, onde tudo é
Filosofia e a Filosofia é tudo.
Aristóteles, o
primeiro grande sistematizador, procurou, no período designado “sistemático”,
demonstrar que “tudo” pode ser objecto do conhecimento filosófico, desde a
cosmologia (estudo levado a cabo pelos primeiros filósofos, como, por exemplo,
Tales de Mileto), ética e política (mais realçadas pelos sofistas e por
Sócrates e Platão) aos problemas metafísicos, científicos e lógicos (por si
estudados com mais detalhes sem, no entanto, deixar de se interessar por aqueles
problemas). E é por essa razão que, nesse contexto, “se a Filosofia significar
a procura da unidade, Aristóteles merece o grande nome que vinte séculos lhe
deram – Ille Philosophus: O Filósofo”
(Durant, p. 67).
Acresce que, no
tempo em que Aristóteles viveu, o saber da época estava todo congregado na
Filosofia, não havia distinção entre filósofo e cientista. Com efeito, “a
Ciência é uma conquista recente da humanidade. Surgiu no século XVII, quando
Galileu estabeleceu as bases de um revolucionário método científico que
transformou a Física e a Astronomia vigentes desde a Antiguidade grega em
ciências modernas” (Aranha, 2015, p. 19).
Ora, conquanto
Aristóteles já tivesse demonstrado uma certa preocupação com a organização do
conhecimento em áreas específicas, pelo facto de ainda não se verificar a
revolução científica, era perfeitamente defensável, nesse contexto, afirmar que
a Filosofia estuda “a totalidade do saber” até então disponível. Hoje, no
entanto, é arriscado tal posicionamento. Com a autonomia da Ciência, e tendo em
conta as limitações do conhecimento humano, torna-se impossível a um só ramo do
saber tratar de estudar todos os assuntos da realidade. Assim, e por razões
metódicas, cabe à Ciência estudar os aspectos empíricos da realidade. À
Filosofia, pelas mesmíssimas razões, cabe estudar os problemas não-empíricos da
realidade, isto é, problemas conceptuais, cujo estudo e solução só podem ser
desenvolvidos mediante o recurso ao diálogo
(dia-logos, do grego), isto
é, “procura da verdade pela razão. Um
diálogo é o movimento de um pensamento através (dia) da linguagem que reflecte
(logos) (Giuliani, 2002, p. 40).”
E porque
incontáveis são os problemas não-empíricos da realidade, vários são os ramos do
saber filosófico que se propõem a responder esses problemas, sendo os
principais os seguintes: Metafísica, Lógica, Epistemologia e Axiologia. No
entanto, mais do que uma resposta teórica a esses problemas, a Filosofia aspira
à sabedoria, à prática, a uma vida reflectida, como dirá Sócrates. Nesse
sentido, a prática filosófica tem um carácter ético-moral e político. Não se
faz Filosofia apenas para ficar esclarecido sobre os problemas do sentido da
vida, da natureza da verdade ou dos valores. Filosofa-se para melhor organizar
a vida, para melhor viver. Ela aproxima-se, assim, da religião, mas também se
diferencia dela. Aproxima-se, porque procura fornecer respostas sobre o sentido
da existência, uma espécie de “salvação”. Diferencia-se, porque ao contrário da
religião que tem como base a fé numa divindade ou em divindades, a sua fé está
depositada unicamente na razão. Ou seja, é, nesse sentido:
“uma doutrina da salvação sem Deus, uma
resposta à questão da vida boa, que não passa por um “ser supremo” nem pela fé,
mas por um esforço próprio de pensamento e pela razão. Uma exigência de
lucidez, em suma, como condição última para a serenidade, compreendida em seu
sentido mais simples e forte: uma vitória — sem dúvida sempre relativa e frágil
— sobre o medo, o medo da morte, em particular, que, sob diversas formas,
igualmente insidiosas, nos impedem de viver bem” (Ferry, 2012, p. 10).
Entretanto, os filósofos não são “obrigados” a serem ateus, a negarem
a existência de Deus. Têm apenas o dever epistémico de se posicionar
criticamente, apresentar boas razões para as suas crenças. A ser assim, o
exercício da prática filosófica, mais do que uma profissão, “um ganha-pão”, é
uma forma de ser e estar no mundo racionalmente que exige dos seus praticantes um
respeito profundo pelo conhecimento e pela verdade. Tal postura
pressupõe também o reconhecimento dos limites do conhecimento humano e,
portanto, de outras formas de saber, como sejam a Ciência e a Teologia.
Ora, nesse sentido, a postura correcta a ser adoptada entre estudiosos
dos mais distintos ramos do saber, mais do que o fechamento, é a abertura de
espírito, o intercâmbio epistémico e a permuta de “experiências.” Essa atitude
deve ser ainda mais evidente na relação Filosofia-Ciência. Há problemas filosóficos
cuja solução carecem de uma evidência científica. Enquadram-se neste grupo os
ligados à bioética. Por outro lado, a justificação da Ciência, suas leis,
limites, poderes e riscos demandam por intervenções filosóficas. Com efeito, é
a Filosofia que tem a autonomia metodológica para estudar conceitos gerais como
os de justificação, lei (incluindo as científicas), princípios, conhecimento,
razão, verdade, justiça, causa, raciocínio e assim por diante.
Relativamente à especificidade do método filosófico, convém acrescer
que ele consiste essencialmente na justificação racional dos problemas de que
se ocupa. Mas a razão não é um apanágio dos filósofos. Cientistas e teólogos
também se servem dela para explicar os problemas de que se ocupam. Sendo, com
efeito, a rigor lógico, condição necessária para qualquer discurso inteligente
(Castro, 2011).
Entretanto, a razão em Filosofia apresenta algumas especificidades que
tornam a sua metodologia sui generis.
Fazem parte do método a suspensão do juízo, que consiste em submeter as nossas
crenças à dúvida para melhor analisá-las. Ao analisar um assunto, o filósofo
procura esclarecer um conceito, dizer o que este é e que partes o compõem. A
conceptualização pressupõe a análise, sendo esta outra etapa do método mais voltada
para o estudo de realidades complexas: “se se trata de um texto, separar as
ideias; de um enunciado, separar os grupos de palavras; se de um conceito,
separar os diferentes momentos; se de um objecto, separar os seus constituintes
até chegar aos seus átomos...” (Giuliani, 2002, pp. 191-192).
A dúvida, a conceptualização e a análise são procedimentos que visam
esclarecer uma realidade e, conquanto sejam fundamentais na actividade
filosófica, há problemas que clamam por outros procedimentos metodológicos.
Tais procedimentos consistem sobretudo no método diálectico (tese, antítese e
síntese). Esta etapa do método filosófico tem a vantagem de reunir elementos
separados e alcançar uma unidade, um sentido. Por exemplo, numa discussão sobre
um tema, usando a dialéctica, “pode mostrar-se que cada uma das teses, devido à
sua insuficiência, chama a sua antítese e inversamente, e que a oposição apenas
pode ser superada por uma síntese de qualidade diferente” (Reboul, 2000, p.
15).
Encontramos exemplos desse procedimento em muitos autores, antigos e
contemporâneos. Platão recorreu a ele. Kant, por essa via, superou as
concepções racionalista e empirista e fundou o criticismo, realçando o papel da
razão e da experiência no processo do conhecimento.
Quanto à finalidade da Filosofia, ela consiste na tentativa de
esclarecer ao homem o seu lugar no mundo, a forma adequada de se relacionar com
os seus semelhantes e a natureza e fornecer um conjunto de orientações para
procurar alcançar a vida boa (entendida no seu sentido racional) nos domínios
político, ético, educativo e cultural. Numa só palavra, como já salientado
acima, ela aspira à sabedoria. Essa procura, que parece não ter fim, é a mola
propulsora que move o filósofo na sua “missão” em busca da verdade. Alguns
filósofos, aborrecidos com tal desígnio, optam por posicionamentos mais
moderados, mas sempre em vista de alternativas razoáveis, defensáveis e
críticas. Há os que se contentam com o simples esclarecimento
lógico-linguístico das palavras e termos; os que, desconfiando das limitações
da linguagem e da lógica, ainda que não as obliterando, preferem enfatizar o
valor estético e persuasivo da linguagem e constroem sistemas ou, quando não,
limitam-se a construir narrativas sobre as teses de outros filósofos ou sobre temas
os mais variados. Qual a melhor maneira de praticar a Filosofia? A escolha por
uma corrente ou maneira de filosofar deve ser filosófica, pelo que não há
fórmulas prontas. No entanto, a tradição tem apontado alguns caminhos. Nesse
sentido, o conselho que Sócrates dá a Críton vale para todos nós:
“sê ponderado e não te preocupes com que
sejam bons ou maus os mestres de Filosofia, e sim, pensa unicamente na própria
Filosofia. Esforça-te por examiná-la bem e sinceramente; se for má, procura
arredar dela todos os homens, mas se for o que acredito que ela é, segue-a,
então, e serve-a, e regozija-te” (Sócrates, cit. por Durant, s/d. P. 14).
Ou seja, Sócrates
sugere que Críton tenha um posicionamento crítico face ao que os filósofos
dizem e que não se limite a segui-los acriticamente. Mais do que isso, convida
Críton à prática da Filosofia, ao filosofar. Para Sócrates, a condição desse
estudo é a sinceridade para consigo e para com os outros. Assim, é possível
avançar algumas linhas-mestras de uma boa prática filosófica, como sejam o
compromisso com a verdade, a primazia pelas questões humanas no domínio dos
valores e da ética, a tentativa de justificar o sentido da vida em geral e da
vida humana em particular. Assim:
✔ “A verdade é desejável numa
filosofia. Presumivelmente, algumas filosofias são bastante inexactas, logo,
pouco enriquecedoras;
✔ Alguns tópicos são mais
profundos que outros. Sendo tudo o resto igual, uma filosofia do homem é mais
profunda que uma filosofia de automóveis ou de culinária;
✔ A filosofia mais racional é
preferível a outra menos racional;
✔ Uma filosofia pessoal,
independentemente da sinceridade em que é adotada, não é uma boa filosofia
(Hetherington, 2003)”.
A Filosofia,
sendo uma disciplina essencialmente crítica, deve ser sempre praticada com
senso crítico. Não de uma crítica vazia, mas apoiada sempre na sua história e
nas regras do seu método, mantendo assim acesas as chamas do diálogo, entendido
em seu sentido etimológico como movimento do pensamento em busca da verdade e
de sentidos. Poderá a Filosofia, nesta “sociedade líquida”, caracterizada pela
velocidade e efemeridade dos encontros e das referências e onde os valores são
postos em crise, despertar nos homens e mulheres o interesse pelos temas de que
se ocupa? Saberá a Filosofia ocupar-se dos temas de interesse desta sociedade?
Essas e outras
questões dignas de serem levantadas remetem-nos para dois aspectos com os quais
se encerra essa reflexão. Em primeiro lugar, dizer que é próprio da Filosofia
lidar com as crises. Nos mais de 2000 anos de investigação filosófica, os
filósofos souberam se posicionar e tratar com rigor os temas do seu tempo,
postura que se espera de todos aqueles que ainda pensam filosoficamente a vida.
Em segundo lugar, mais do que dos temas emergentes de interesse da sociedade
actual, e porque não se compadece com modismos, a Filosofia deve continuar a
tratar dos tópicos inerentes à sua natureza, sobretudo daqueles que mais se
aproximam das nossas reais necessidades. São temas como a paz, a justiça, a
ética e a organização político-social. O esclarecimento filosófico desses temas
é de vital importância hoje, porque, no final das contas, a vida em sociedade,
o progresso dos povos, a vivência e a convivência de cada um e de todos
depende, em grande medida, do esclarecimento e prática do que seja uma boa vida
para o homem.
O filósofo é
(deve ser), mais do que qualquer outra coisa, um verdadeiro educador, porque é
da natureza da Filosofia a dialogicidade, a eticidade e a veracidade. Mesmo sem
se juntar a uma instituição de ensino, basta filosofar para entrar no terreno
da educação nos seus diferentes sentidos.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
Aranha,
M. L. (2015). Fillosofia da Educação.
São Paulo: Moderna.
Castro,
C. d. (2011). A Prática da Pesquisa
Científica (2ª ed.). São Paulo: Paerson.
Durant,
W. (s.d.). História da Filosofia. São
Paulo: Coleção Vida e Cultura.
Ferry,
L. (2012). A Sabedoria dos Mitos Gregos:
aprender a viver II. Rio de Janeiro: Objetiva.
Ghiraldelli,
P., & Castro. (2014). A Nova
Filosofia da Educação. São Paulo: Manole.
Giuliani, B. (2002). O Amor da Sabedoria: iniciação à Filosofia. Lisboa: Instituto Piaget.
Hetherington, S. (2003). Realidade, Conhecimento, Filosofia: uma introdução à metafísica e à epistemologia. Lisboa: Instituto Piaget.
Murcho,
D. (2002). A Natureza da Filosofia e o
seu Ensino. Lisboa: Plátano Edições Técnicas.
Reboul,
O. (2000). A Filosofia da Educação.
Lisboa: Edições 70.
Fantástico!
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