O realismo de Platão

Há uma ideia amplamente difundida em relação à natureza da filosofia de Platão, segundo à qual, Platão foi um filósofo idealista. O objectivo deste texto é avaliar criticamente esta ideia, isto é, ver se há boas razões a favor dela. Defenderei que não há boas razões para considerarmos Platão um filósofo idealista, ou seja, defenderei que Platão não pode ser considerado um filósofo idealista pelas razões que apresentarei. Platão foi um filósofo grego do séc. V a.C, que contribuiu significativa e qualitivamente para o avanço da discussão filosófica cuidadosa. O aspecto da filosofia de Platão em causa, neste texto, é a sua contribuição à metafísica, uma disciplina filosófica que, entre outros problemas, estuda a natureza última da realidade. Este problema pode ser formulado da seguinte maneira: Qual é a natureza última da realidade? Ou, o que é a realidade, em última instância?. Mas, na filosofia contemporânea, este problema é discutido na epistemologia em vez de ser discutido na metafísica, porque tem que ver com a justificação da nossa crença na existência do mundo exterior. Porque o que está em causa é o pensamento de Platão, e por razões de contextos histórico e filosófico, vou tratar do problema conforme à formulação antiga. 

Platão é herdeiro de uma vasta discussão filosófica na área da metafísica que, entre outras coisas, consistia em saber qual era a verdadeira realidade. Platão tinha dificuldade de lidar intelectualmente com o carácter dinâmico da natureza que observamos e acreditava que não era possível um conhecimento genuíno sobre ele. Por esta razão, Platão pensava que a natureza que observamos não podia ser a verdadeira realidade, uma vez que ela está sujeita à alterações ao longo do tempo. Por exemplo: se dissermos que “o tomate é verde” , uma vez que a cor do tomate pode mudar, Platão acreditava que não podemos captar a verdadeira cor do tomate, se considerarmos o que observamos como a verdadeira realidade. Assim, Platão pensava que a verdadeira realidade é a Ideia e como há Ideia de tudo o que vemos na natureza que observamos, há, portanto, o Mundo das Ideias que é uma realidade eterna e imutável. É aqui que entramos no assunto central deste texto, designadamente a tese de que esta solução proposta por Platão – de que a verdadeira realidade é a Ideia ou o Mundo das Ideias - faz dele um filósofo idealista e muitas vezes se diz mesmo que ele é o fundador do idealismo. Como já referi, mostrarei que Platão não foi um filósofo idealista. O idealismo é a tese filosófica que responde àquele problema inicial segundo a qual a natureza última da realidade é fundamentalmente mental, o que isso significa é que, em útlima instância, não há realidade ou objectos físicos fora e independente da nossa mente, que o mundo exterior não existe fora e independente da nossa mente. Como consequência, um idealista é aquele que defende que fora da nossa mente e dos seus conteúdos não há coisa alguma.

Assim, para o idealista, o que existe é a nossa mente e seus conteúdos, ou seja, os objectos físicos reduzem-se a esses conteúdos mentais, os objectos não são mais do que representação na nossa mente. Bem, há vários tipos de idealismo: há o idealismo transcendental de Kant segundo o qual, em última instância, o objecto do nosso conhecimento é produto da construção ou é moldado pela mente do sujeito; há o idealismo absoluto ou objectivo que unifica o mundo e o pensamento; há o idealismo subjectivo que defende que a realidade dos objectos físicos está na existência como ideias na mente. Há ainda o idealismo linguístico segundo o qual nós é que criamos o mundo em que habitamos com as categorias linguísticas e sociais as quais não são independentes da mente; há idealismo na ciência que defende, por exemplo, que entidades como os quarks são construções da mente, mas úteis para a explicação bem-sucedida de certos fenómenos; há o idealismo na matemática, o chamado nominalismo matemático, segundo o qual as entidades matemáticas (números e quantidades) não têm existência independente da nossa mente. Como se vê, todas estás versões de idealismo, defendem que a realidade é construção da mente e dependente desta. 

A solução proposta por Platão para o problema de saber qual é a verdadeira realidade e qual é a sua natureza tem sido entendida como uma forma de idealismo, mas isso não passa de uma confusão. E a razão por que considero uma confusão é que a Ideia de Platão é uma realidade autónoma, independente da mente e do pensamento que se impõe objectivamente ao sujeito, ela não se reduz a conteúdos ou representações mentais. A Ideia é, para Platão, a verdadeira realidade que, embora esta não coincida com o que observamos na natureza, existe fora e independente da nossa mente e  do nosso pensamento.

Mas por que há esta persistente confusão? Considero haver três razões que explicam esta persistência:

A primeira, é o que chamo de ilusão linguística por parónimia: o que acontece é que geralmente somos levados a pensar que Platão foi um filósofo idealista, porque acreditava que a verdadeira realidade é a Ideia, ou seja, olhamos para a aparência entre as palavras Ideia e idealismo sem , no entanto, procurarmos esclarecer o que elas referem.

A segunda razão é a ausência de distinção importante entre as noções de ideia em Platão e a que encontramos nos filósofos modernos como: Descartes, Locke, Berkeley e Hume; e as duas noções não coincidem. Platão emprega o termo ideia para referir a verdadeira realidade, em oposição às coisas que observamos na natureza, que existe de maneira autônoma e independente da nossa mente e das representações que esta faz daquela. Já os filósofos modernos, empregam o termo ideia para referir conteúdos mentais ou representações da realidade na nossa mente. Descartes entendia que ideia é tudo o que está na mente de qualquer ser pensante; Hume identifica a ideia à imagem dos objectos na nossa mente que resultam da percepção. Portanto, as noções de ideia em Platão e nos filósofos modernos não referem a mesma coisa.

A terceira e última razão é fingir interesse cognitivo que não existe: algumas vezes fingimos ter realmente interesse em compreender determinado assunto, mas o que temos é mesmo sede de prestígio social e, quando só temos isso, impede-nos de avaliar as coisas cuidadosamente e o mais imparcialmente possível.

Para sintetizar, vou apresentar um raciocínio, na sua forma canónica, para ilustrar todo o exposto aqui:

Um idealista é aquele que defende que a realidade, em última instância, é largamente dependente da nossa mente. 

Platão não defende que a realidade é, em última instância, dependente da nossa mente.
Logo; Platão não foi um filósofo idealista.

A validade deste raciocínio testa-se ao vermos que não há circunstância alguma em que as premissas são verdadeiras e a conclusão, ou seja, sabendo que as premissas são verdadeiras consegue-se saber, desta maneira apenas, que a conclusão também é verdadeira. O caro leitor pode avaliar se o raciocínio é bom.

Portanto, Platão não pode ser considerado um filósofo idealista, porque um idealista é aquele que defende que a realidade é, em última instância, dependente da nossa mente e Platão defende que, em última instância, a realidade não é dependente da nossa mente.  

Autoria: Silva Serrote











Bibliografia
Almeida, A. (2003). Dicionário escolar de filosofia. Lisboa. Portugal: Plátano Editora.
Blackburn, S. (1994) Dicionário Oxford de filosofia. (1ª ed). Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor
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Scruton, R. (1981). Introdução à Filosofia Moderna: de Descartes à Wittgenstein. Rio de Janeiro: Zahar Editores.
Reale, G., & Antiseri, D (2011). História da Filosofia: filosofia pagã antiga. (1º Vol 5ª ed). São Paulo. Brasil: Paulus.


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