Humildade científica
A humanidade tem procurado melhorar sua compreensão de tudo aquilo de cuja existência se dá conta e tem, de facto, conseguido melhorá-la, paulatinamente, num longo processo, o que leva a admitir que alguns erros têm persistido mais tempo, sendo, assim, a história da ciência a globalidade de seus acertos e seus erros.
O que
mais tem dificultado, dentre tantos outros factores de relevo, a evolução da
ciência é a falta de humildade ou a falta de honestidade dos cientistas? Consideremos
o seguinte caso:
Posteriormente, Galileu Galilei, durante o século XVII, reforçou a
teoria heliocêntrica através de observações com lunetas holandesas. Como
consequência de seu “atrevimento”, Galileu foi julgado pelo tribunal da
Inquisição, tendo como opção negar sua teoria ou ser queimado na fogueira da
Inquisição. Sem muitas alternativas, sua teoria foi negada
Esse é um caso bem conhecido, tomado para a reflexão
sobre a humildade científica. Sabendo-se da negação da perspectiva
heliocêntrica, Galileu abandona sua inclinação para uma verdade, aparta-se do
que seria honesto, para se apresentar com humildade mas, essa atitude de
humildade é reflexo do que seria exemplo de humildade científica? Ou seja, é
preciso ser cientista para, num caso desse, escolher a vida no lugar da morte?
Se for isso, dir-se-ia que foi por falta de uma humildade desse tipo que
Sócrates aceitou morrer? O que é o apelo a humildade científica quando uma nova
verdade científica pode tomar lugar e empurrar a humanidade para o alargamento de
suas compreensões do Universo?
É apenas calar uma voz que desafia as noções
consideradas verdadeiras pelo medo da mudança, sem se importar com o conteúdo
dessa dissonante voz. É um subterfúgio de quem, tendo poder, como foi o caso da
Igreja diante de Galileu salvaguardar o status
quo de uma determinada perspectiva, ou, não tendo o poder, segue-se ainda
um pretexto para não mudar, pelo menos, na maioria dos casos em que testemunho
o uso desta expressão. Assim como respiramos pelo facto de sermos humanos, a
humildade é uma atitude humana que não depende do carácter científico de uma
pessoa, ou seja, rigorosamente, não se deveria falar em humildade científica
como uma qualidade ou atitude própria do cientista.
Tem ainda outro caso marcante enquanto
escrevia sobre o presente assunto:
Concatenado via telefone, um ouvinte
de rádio declarava sua admiração por uma cantora: gosto dela porque canta bem e
principalmente porque é uma cantora muito humilde – justificou. Mal terminou de
apresentar sua justificação, o apresentador do programa, Miguel Neto,
questionou: como sabes que ela é humilde? O que se seguiu foi um enrolar-se até
se dar lugar aos abraços e a despedida.
Assim como esse ouvinte de rádio, muitos
mal saberiam dizer o que é humildade, e a preocupação aumenta porque há, também,
os académicos que, pelo que revelam, ainda não voltaram sua reflexão com algum
esmero para o termo em causa, para que possam, pelo menos em circunstâncias
académicas, tratarem-no como deve ser.
Humildade científica, o que é?
Normalmente a diminuição da extensão
de um conceito é feita para que não seja confundido com os outros de similar
natureza, ou seja, quem fala da indústria do futebol, normalmente quer que não
se confunda ela com, por exemplo, a indústria da moda ou a indústria alimentar.
Assim, seria legítimo questionar: quem fala em humildade científica quer que se
evite, havendo outro, a confusão com que tipo de humildade?
Bem, considerem-se duas perspectivas
sobre a humildade, expressas no mais influente livro da humanidade, a Bíblia Sagrada. Se por um lado afirma-se
que “aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será
exaltado” (Mateus 23:12), por outro lado, afirma-se também que “derrubou do
trono os poderosos e exaltou os humildes” (Lucas 1:52).
A implicação das duas perspectivas
consiste no seguinte: pela consideração em Mateus, a humildade é a auto-inferiorização
ou o voluntário e consciente apequenamento e o humilde é o auto-inferiorizado
ou apequenado. Isso implica que o carácter de humildade de uma pessoa não se baseia na sua condição real de posses ou não,
ela está centrada na atitude tomada pela pessoa que, ainda que tenha grandes
posses, coloca-se à disposição como quem não as tem; porquanto a perspectiva em
Lucas consiste em entender a humildade como sendo o oposto, pelo menos
parcialmente, à perspectiva antecedente pois, nesta perspectiva, a humildade é
a condição em que realmente se tem poucas posses e o humilde é o pobre e, é por
conta disso que, a noção de humilde nessa passagem apresenta-se em oposição a
quem tem posses ou poder.
Conclusivamente, a diferença entre as
duas perspectivas tem seu escopo no seguinte: em Mateus apresenta-se uma
situação ideal para que se vivencie a humildade e, por consequência, torne-se
digno dos céus (ideia reforçada na passagem de Mateus 19: 21), ao passo que, em
Lucas apresenta-se uma descrição, isto é, humilde é o pobre é aquele que não
tem grandes posses.
Na sequência de questões legítimas,
para os académicos que falam em humildade científica, vinculam-se à noção de
humildade presente em Mateus ou em Lucas? Se for a que está em Mateus, em
relação a quê deve o cientista apequenar-se? Se for em relação à noção presente
em Lucas, o que é pobreza na natureza da ciência?
Em discussões assim, há quem apele
para a possibilidade de haver a humildade no cientista e não na ciência. Não
sei com que raciocínio consegue-se chegar até aí, pois, se algo não for característica
da própria ciência não poderá ser também característica do cientista. Ou seja, é-se
cientista na medida em que há uma adequação entre o papel que o cientista
assume e os limites do que a ciência aceita. Isto é, sabemos que qualquer
pessoa tem direito de dizer o que quiser sobre a ciência, mas há que estar
pronto. Não é dever dos que entendem do assunto aceitar qualquer consideração
sobre ela, é um dever combater qualquer ideia ou quaisquer posições de cunho
pseudo-científico.
Pode-se encontrar modéstia,
submissão e inferioridade entre
os significados de humildade num dicionário. Considerando os sentidos do
dicionário, quando se trata de modéstia é o mesmo que falar de
simplicidade ou, mais propriamente, de falta de faustosidade ou de luxúria,
sentidos que não tem como relacionar com a ciência; em relação a submissão,
considerando o que a ciência é, senão for à verdade, a nada mais se deve submeter
e, infelizmente, tal como não foi à verdade que se procurou submeter Galileu,
ainda persiste, actualmente, a mesma referência quando se fala de humildade
científica, conforme as circunstâncias de que sou testemunha.
Em geral, dizem: há outras perspectivas e, sem querer
analisar com esmero a verdade ou a falsidade da outra perspectiva, procura-se
passar a mensagem de que, como há outra possibilidade, apenas aceite a posição
do interlocutor ou o que o consenso da maioria diz.
Bem, se no decurso da história tivesse de ser esse o
critério, jamais se aprenderia que as falácias são considerações em relação às
quais deve o cientista ou o filósofo apartar-se. Quanto à inferioridade, a questão
subsiste: o que seria inferioridade científica? Seria a incapacidade de
resolver todos os problemas que a humanidade tem? Se for isso mesmo, então
seria correcto falar em inferioridade artística porque há problemas que a arte
não resolve? Nesse sentido, tudo seria por si mesmo inferior porque nada há que
possa tudo resolver, ou seja, o estado normal do cientista é já de quem sabe
que há sempre várias perspectivas debruçando-se sobre uma determinada matéria
e, disso, não deve resultar que aqueles que consideram suas perspectivas
melhores procurarem emudecer a perspectiva diferente em nome desta “virtude”
chamada humildade científica, do mesmo modo que, não se deve pensar que esse
facto deve empurrar o cientista a aceitação de qualquer consideração em nome da
ciência.
De acordo com Gomes, a humildade científica
é a capacidade de reconhecer nossas limitações de conhecimento e atentar
para a dinamicidade da vida e do universo, buscando sempre a ampliação de nosso
aprendizado... é a atitude de reconhecimento de que nunca se sabe tudo sobre
algo, seguida de acção que busca pela aprendizagem, a superação de nossas áreas
de ignorância, com a leitura de livros, jornais e revistas e com diálogo com
outras pessoas
Aceite-se a consideração de Gomes e procuremos
entender seu fundamento. Consideremos dois cientistas: um é físico e outro é
biólogo. O biólogo admite para o físico que não consegue entender como os
físicos calculam as grandes distâncias entre planetas, por exemplo. O físico
reage e elogia a grande humildade científica do biólogo e este reage dizendo
que não se trata de uma questão de humildade, apenas admitiu isso por ser
verdade, por uma questão de honestidade. Como nesse caso, considere-se que uma
determinada pessoa que tenha sob sua responsabilidade algumas crianças tenha,
da parte de uma delas, a solicitação para resolver um trabalho para casa porque
não sabe, admitir que não sabe é uma questão de humildade ou de honestidade da
parte da criança? Visto que a admissão tem lugar por se querer exprimir uma
determinada verdade, é uma questão de honestidade, sendo uma questão de
humildade se, o fundamento fosse querer mostrar-se pequeno naquela matéria.
Partindo da consideração de Gomes, se a humildade
científica é mesmo isso, então ela é uma confusão conceptual, apenas isso, pois,
quem sabe das características da ciência, sabe também, que, mesmo sem essa
humildade, o cientista sabe sempre que há várias perspectivas na solução de
problemas e a direcção assumida por pensadores como Gomes pressupõe que sem o
carácter de humildade o cientista não seria capaz de reconhecer a existência de
outras perspectivas, o que seria uma contradição, visto que, se se admite que
há uma maneira que não é a única de resolver um problema ou compreender um
fenómeno, implica que bastaria ser honesto para reconhecer-se que não se domina
uma outra via de compreensão e resolução do mesmo problema.
Para que se aclare que a humildade científica,
rigorosamente considerada, não passa de uma confusão, um mal-entendido, bastaria
que se conhecessem as características da ciência e implicação das mesmas e se,
depois de tal consideração for ainda salutar pensar que a ciência tenha alguma
lacuna que só se pode preencher com a humildade, aí sim, poder-se-ia considerar
justificável pensar nela como uma das características da ciência e, caso
contrário, é um equívoco do qual se devem afastar aqueles que se consideram
académicos, uma vez que, somente são características do cientista aquelas que
resultam das características da ciência. Não sendo desse modo, não há coerência
interpretativa possível.
Quanto às características da ciência, é desnecessário
mostrar todas (por isso se diz que basta um corvo branco para provar que nem
todos os corvos são pretos), bastando para o presente propósito que se
apresentem as mais consensuais e difundidas, propondo-se, assim, que se
considerem as seguintes: objectividade, racionalidade, sistematicidade, generalidade,
falibilidade, clareza e precisão metodológica.
Considerando algumas destas características em
simultâneo com a compreensão de que, a nível operacional, “a ciência é todo um
conjunto de atitudes e actividades racionais dirigidas ao sistemático
conhecimento com objecto limitado, capaz de ser submetido à verificação”
Sabendo-se de que são essas as características da
ciência, o que implicaria a nível comportamental? Visto que todas as pessoas assumem
múltiplos status e papeis, quais são
os comportamentos devidos a uma pessoa nas vestes de cientista?
Os comportamentos que uma pessoa deve assumir nas
vestes de cientista são os que se conformam com a ciência, com as
características da ciência. Sendo assim, pense-se que o cientista é a pessoa
que actua sabendo que a ciência tem sua base na objectividade, em considerações
independentes das preferências pessoais, sendo ao mesmo tempo considerações lógicas,
cujos elementos encontram-se dispostos em um sistema, um sistema cujo conteúdo
pode mudar mediante novas descobertas e ampliações técnicas para apreender a
realidade, pois é um sistema que falha.
Sendo isso o cientista, pode-se concluir que, tal como
a ciência não tem na sua constituição a humildade, nada no cientista indica que
ele tem de ser humilde e, provavelmente, quando alguém fala em humildade
científica não se apega a uma qualidade verdadeiramente científica, pode-se
pensar que aceita uma influência extra científica para qualificar a acção de um
cientista (ou confundindo aquele que também é cientista nas vestes de um outro status).
Humildade científica não pode ser uma consideração
científica sobre o comportamento de alguém e, esse é o fundamento da presente
redação: dar conta de que, embora popularizado entre os académicos, não é um
conceito como o de precisão ou de objectividade científica.
Uma vez que não é uma consideração cientifica, em
decorrência da própria ciência, seria correcto falar-se em objectividade ou
honestidade científica, pois, havendo outro tipo de honestidade, o cientista
admite as limitações do seu conhecimento por honestidade: a diferença é que
pela humildade querer passar-se a ideia de que deve o cientista rebaixar-se
pelo simples facto de não saber tudo, quando basta, para tal, que o cientista
apenas admita que não sabe determinada perspectiva sobre um determinado assunto,
aliás, nunca houve um método científico capaz de provar que a ciência sabe tudo.
Bem, poderia o leitor questionar-se, por não ter visto
a honestidade entre as características da ciência na descrição acima, mas uma
visão não literalista e entendedora do que seja implicação lógica saberá que,
por exemplo, pela objectividade, já se quer dizer que o cientista deve
transmitir apenas o que os factos são, ou seja, deve ser honesto e não subordinar
suas preferências morais porquanto se propõe representar ou responder em nome
da ciência.
Outro facto de relevo é que a humildade popularizou-se
como “virtude” por motivo religioso, no contexto em que escrevo esta redacção,
mais propriamente por motivo cristão e, diga-se isso, porque, normalmente é na Bíblia que as pessoas se baseiam para
apresentar a humildade como uma qualidade a exaltar, uma virtude: a nível de
algum condicionamento moral, o humilde é quem se faz pequeno.
Diante do facto de que muitos queiram fazer passar a
humildade como se ela fosse o mesmo que a honestidade, pode-se entender que não
se trata da mesma coisa, sabendo-se que o registo de pensadores antigos permite
dar conta de que ser humilde é ser pequeno, um sentido distante do que é a
honestidade:
de humus provém o adjetivo humilis, que designava, em latim, tudo o
que estivesse perto do solo ou, por extensão de sentido, tudo o que tivesse
pouca altura. Servia para qualificar pessoas, animais, plantas e qualquer
objeto. Por exemplo, lê-se turris humilis
(torre baixa)
em César e domus humilis (casa
térrea) em Horácio, enquanto Cícero chamava eaquae
sunt humiliora às plantas de baixo porte. Virgílio, por seu lado, na Eneida
(IV, 255), referindo-se a Mercúrio e comparando-o a uma ave (avi similis), diz que “voa baixo” (humilis volat)
Humildade científica é a expressão errada e popular
usada para aleatoriamente substituir aquilo a que se devesse referir por honestidade
científica e a honestidade tanto é requerida dos pequenos quanto de grandes
cientistas, ao passo que, a humildade científica não é requerida nem de um, nem
de outro, quando as pessoas respondem nas vestes de cientistas.
Quando não se sabe de algo, quem não sabe, pode
admitir pelo simples facto de que realmente não sabe – isto é honestidade; pode
admitir pelo facto de querer parecer inferior – isto é humildade; ou ainda,
pode fingir que sabe e tentar passar a imagem de que seja superior do que
realmente é – isto é desonestidade e soberba.
Referências
Francisco,
W. C. (s.d.). Geocentrismo e heliocentrismo. Acesso em 23 de Março de
2023, disponível em mundoeducacao.uol.com.br: mundoeducacao.uol.com.br/geografia/geocentrismo-heliocentrismo.htm
Gomes, C. (7 de Julho de 2010). Humildade científica.
Acesso em 23 de Março de 2023, disponível em psicocarlosgomes.blogspot.com:
psicocarlosgomes.blogspot.com/2010/07/humildade-cientifica.html?m=1
Neves, G. (28 de Junho de 2017). A etimologia de
humildade e de humilde. Acesso em 24 de Março de 2023, disponível em
ciberduvidas.iscte-iul.pt:
ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/a-etimologia-de-humildade-e-de-humilde/34405
O QUE É CIÊNCIA. (s.d.). O que é ciência? Acesso em
24 de Março de 2023, disponível em www.metodologiacientifica.org:
www.metodologiacientifica.org/que-e-ciencia/amp/
Embora adoentado, fiz um esforço que por sinal valeu apena, pois me permitiu dissipar alguma confusão induzida pelo pensamento comum nas nossas lides “académica”. Portanto, está de parabéns o Bange, pelo artigo bem conseguido, e nós os consumidores.
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Jacinto Henriques Cassanga, mas conhecido por Dinho.
Certamente jamais pensaria ser digno de tanto sacrifício. Muito obrigado mesmo pelo esforço e contaremos sempre com sugestões e críticas a fim de melhorarmos.
EliminarPassando para agradecer pela construção criteriosa deste rico conteúdo. Procurarei ler e reler, para entender da melhor forma possível... Felicitações pela produção textual Banje.
ResponderEliminarAlves Mandele
Muito obrigado pelo feedback, querido amigo. Não hesite em sugerir ou criticar aquilo em que possamos melhorar.
EliminarO que está na base do uso do termo humildade científica ao invés de honestidade científica?
ResponderEliminarEm poucas palavras, está o facto de entender humildade como uma virtude e, transportar uma virtude para a ciência é algo bom. O mal está no facto de se ter nisso uma virtude, sem se colocar em causa se realmente é.
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