Humildade científica


A humanidade tem procurado melhorar sua compreensão de tudo aquilo de cuja existência se dá conta e tem, de facto, conseguido melhorá-la, paulatinamente, num longo processo, o que leva a admitir que alguns erros têm persistido mais tempo, sendo, assim, a história da ciência a globalidade de seus acertos e seus erros. 

O que mais tem dificultado, dentre tantos outros factores de relevo, a evolução da ciência é a falta de humildade ou a falta de honestidade dos cientistas? Consideremos o seguinte caso:

Posteriormente, Galileu Galilei, durante o século XVII, reforçou a teoria heliocêntrica através de observações com lunetas holandesas. Como consequência de seu “atrevimento”, Galileu foi julgado pelo tribunal da Inquisição, tendo como opção negar sua teoria ou ser queimado na fogueira da Inquisição. Sem muitas alternativas, sua teoria foi negada (Francisco, s.d.).

Esse é um caso bem conhecido, tomado para a reflexão sobre a humildade científica. Sabendo-se da negação da perspectiva heliocêntrica, Galileu abandona sua inclinação para uma verdade, aparta-se do que seria honesto, para se apresentar com humildade mas, essa atitude de humildade é reflexo do que seria exemplo de humildade científica? Ou seja, é preciso ser cientista para, num caso desse, escolher a vida no lugar da morte? Se for isso, dir-se-ia que foi por falta de uma humildade desse tipo que Sócrates aceitou morrer? O que é o apelo a humildade científica quando uma nova verdade científica pode tomar lugar e empurrar a humanidade para o alargamento de suas compreensões do Universo?

É apenas calar uma voz que desafia as noções consideradas verdadeiras pelo medo da mudança, sem se importar com o conteúdo dessa dissonante voz. É um subterfúgio de quem, tendo poder, como foi o caso da Igreja diante de Galileu salvaguardar o status quo de uma determinada perspectiva, ou, não tendo o poder, segue-se ainda um pretexto para não mudar, pelo menos, na maioria dos casos em que testemunho o uso desta expressão. Assim como respiramos pelo facto de sermos humanos, a humildade é uma atitude humana que não depende do carácter científico de uma pessoa, ou seja, rigorosamente, não se deveria falar em humildade científica como uma qualidade ou atitude própria do cientista.

Tem ainda outro caso marcante enquanto escrevia sobre o presente assunto:

Concatenado via telefone, um ouvinte de rádio declarava sua admiração por uma cantora: gosto dela porque canta bem e principalmente porque é uma cantora muito humilde – justificou. Mal terminou de apresentar sua justificação, o apresentador do programa, Miguel Neto, questionou: como sabes que ela é humilde? O que se seguiu foi um enrolar-se até se dar lugar aos abraços e a despedida.

Assim como esse ouvinte de rádio, muitos mal saberiam dizer o que é humildade, e a preocupação aumenta porque há, também, os académicos que, pelo que revelam, ainda não voltaram sua reflexão com algum esmero para o termo em causa, para que possam, pelo menos em circunstâncias académicas, tratarem-no como deve ser.

Humildade científica, o que é?

Normalmente a diminuição da extensão de um conceito é feita para que não seja confundido com os outros de similar natureza, ou seja, quem fala da indústria do futebol, normalmente quer que não se confunda ela com, por exemplo, a indústria da moda ou a indústria alimentar. Assim, seria legítimo questionar: quem fala em humildade científica quer que se evite, havendo outro, a confusão com que tipo de humildade?

Bem, considerem-se duas perspectivas sobre a humildade, expressas no mais influente livro da humanidade, a Bíblia Sagrada. Se por um lado afirma-se que “aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será exaltado” (Mateus 23:12), por outro lado, afirma-se também que “derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes” (Lucas 1:52).

A implicação das duas perspectivas consiste no seguinte: pela consideração em Mateus, a humildade é a auto-inferiorização ou o voluntário e consciente apequenamento e o humilde é o auto-inferiorizado ou apequenado. Isso implica que o carácter de humildade de uma pessoa não se baseia na sua condição real de posses ou não, ela está centrada na atitude tomada pela pessoa que, ainda que tenha grandes posses, coloca-se à disposição como quem não as tem; porquanto a perspectiva em Lucas consiste em entender a humildade como sendo o oposto, pelo menos parcialmente, à perspectiva antecedente pois, nesta perspectiva, a humildade é a condição em que realmente se tem poucas posses e o humilde é o pobre e, é por conta disso que, a noção de humilde nessa passagem apresenta-se em oposição a quem tem posses ou poder.

Conclusivamente, a diferença entre as duas perspectivas tem seu escopo no seguinte: em Mateus apresenta-se uma situação ideal para que se vivencie a humildade e, por consequência, torne-se digno dos céus (ideia reforçada na passagem de Mateus 19: 21), ao passo que, em Lucas apresenta-se uma descrição, isto é, humilde é o pobre é aquele que não tem grandes posses.

Na sequência de questões legítimas, para os académicos que falam em humildade científica, vinculam-se à noção de humildade presente em Mateus ou em Lucas? Se for a que está em Mateus, em relação a quê deve o cientista apequenar-se? Se for em relação à noção presente em Lucas, o que é pobreza na natureza da ciência?

Em discussões assim, há quem apele para a possibilidade de haver a humildade no cientista e não na ciência. Não sei com que raciocínio consegue-se chegar até aí, pois, se algo não for característica da própria ciência não poderá ser também característica do cientista. Ou seja, é-se cientista na medida em que há uma adequação entre o papel que o cientista assume e os limites do que a ciência aceita. Isto é, sabemos que qualquer pessoa tem direito de dizer o que quiser sobre a ciência, mas há que estar pronto. Não é dever dos que entendem do assunto aceitar qualquer consideração sobre ela, é um dever combater qualquer ideia ou quaisquer posições de cunho pseudo-científico.

Pode-se encontrar modéstia, submissão e inferioridade entre os significados de humildade num dicionário. Considerando os sentidos do dicionário, quando se trata de modéstia é o mesmo que falar de simplicidade ou, mais propriamente, de falta de faustosidade ou de luxúria, sentidos que não tem como relacionar com a ciência; em relação a submissão, considerando o que a ciência é, senão for à verdade, a nada mais se deve submeter e, infelizmente, tal como não foi à verdade que se procurou submeter Galileu, ainda persiste, actualmente, a mesma referência quando se fala de humildade científica, conforme as circunstâncias de que sou testemunha.

Em geral, dizem: há outras perspectivas e, sem querer analisar com esmero a verdade ou a falsidade da outra perspectiva, procura-se passar a mensagem de que, como há outra possibilidade, apenas aceite a posição do interlocutor ou o que o consenso da maioria diz.

Bem, se no decurso da história tivesse de ser esse o critério, jamais se aprenderia que as falácias são considerações em relação às quais deve o cientista ou o filósofo apartar-se. Quanto à inferioridade, a questão subsiste: o que seria inferioridade científica? Seria a incapacidade de resolver todos os problemas que a humanidade tem? Se for isso mesmo, então seria correcto falar em inferioridade artística porque há problemas que a arte não resolve? Nesse sentido, tudo seria por si mesmo inferior porque nada há que possa tudo resolver, ou seja, o estado normal do cientista é já de quem sabe que há sempre várias perspectivas debruçando-se sobre uma determinada matéria e, disso, não deve resultar que aqueles que consideram suas perspectivas melhores procurarem emudecer a perspectiva diferente em nome desta “virtude” chamada humildade científica, do mesmo modo que, não se deve pensar que esse facto deve empurrar o cientista a aceitação de qualquer consideração em nome da ciência.

De acordo com Gomes, a humildade científica

é a capacidade de reconhecer nossas limitações de conhecimento e atentar para a dinamicidade da vida e do universo, buscando sempre a ampliação de nosso aprendizado... é a atitude de reconhecimento de que nunca se sabe tudo sobre algo, seguida de acção que busca pela aprendizagem, a superação de nossas áreas de ignorância, com a leitura de livros, jornais e revistas e com diálogo com outras pessoas (Gomes, 2010).

Aceite-se a consideração de Gomes e procuremos entender seu fundamento. Consideremos dois cientistas: um é físico e outro é biólogo. O biólogo admite para o físico que não consegue entender como os físicos calculam as grandes distâncias entre planetas, por exemplo. O físico reage e elogia a grande humildade científica do biólogo e este reage dizendo que não se trata de uma questão de humildade, apenas admitiu isso por ser verdade, por uma questão de honestidade. Como nesse caso, considere-se que uma determinada pessoa que tenha sob sua responsabilidade algumas crianças tenha, da parte de uma delas, a solicitação para resolver um trabalho para casa porque não sabe, admitir que não sabe é uma questão de humildade ou de honestidade da parte da criança? Visto que a admissão tem lugar por se querer exprimir uma determinada verdade, é uma questão de honestidade, sendo uma questão de humildade se, o fundamento fosse querer mostrar-se pequeno naquela matéria.

Partindo da consideração de Gomes, se a humildade científica é mesmo isso, então ela é uma confusão conceptual, apenas isso, pois, quem sabe das características da ciência, sabe também, que, mesmo sem essa humildade, o cientista sabe sempre que há várias perspectivas na solução de problemas e a direcção assumida por pensadores como Gomes pressupõe que sem o carácter de humildade o cientista não seria capaz de reconhecer a existência de outras perspectivas, o que seria uma contradição, visto que, se se admite que há uma maneira que não é a única de resolver um problema ou compreender um fenómeno, implica que bastaria ser honesto para reconhecer-se que não se domina uma outra via de compreensão e resolução do mesmo problema.

Para que se aclare que a humildade científica, rigorosamente considerada, não passa de uma confusão, um mal-entendido, bastaria que se conhecessem as características da ciência e implicação das mesmas e se, depois de tal consideração for ainda salutar pensar que a ciência tenha alguma lacuna que só se pode preencher com a humildade, aí sim, poder-se-ia considerar justificável pensar nela como uma das características da ciência e, caso contrário, é um equívoco do qual se devem afastar aqueles que se consideram académicos, uma vez que, somente são características do cientista aquelas que resultam das características da ciência. Não sendo desse modo, não há coerência interpretativa possível.

Quanto às características da ciência, é desnecessário mostrar todas (por isso se diz que basta um corvo branco para provar que nem todos os corvos são pretos), bastando para o presente propósito que se apresentem as mais consensuais e difundidas, propondo-se, assim, que se considerem as seguintes: objectividade, racionalidade, sistematicidade, generalidade, falibilidade, clareza e precisão metodológica.

Considerando algumas destas características em simultâneo com a compreensão de que, a nível operacional, “a ciência é todo um conjunto de atitudes e actividades racionais dirigidas ao sistemático conhecimento com objecto limitado, capaz de ser submetido à verificação” (O QUE É CIÊNCIA), entende-se que o conhecimento científico tem um valor que não depende das preferências pessoais de quem pesquisa; o conhecimento científico alicerça-se em considerações lógicas; dispõe seus elementos concatenados em um sistema; baseado em factos, ultrapassa cada facto em si para formular sentenças gerais; o conhecimento científico é falaz; a ciência é específica.

Sabendo-se de que são essas as características da ciência, o que implicaria a nível comportamental? Visto que todas as pessoas assumem múltiplos status e papeis, quais são os comportamentos devidos a uma pessoa nas vestes de cientista?

Os comportamentos que uma pessoa deve assumir nas vestes de cientista são os que se conformam com a ciência, com as características da ciência. Sendo assim, pense-se que o cientista é a pessoa que actua sabendo que a ciência tem sua base na objectividade, em considerações independentes das preferências pessoais, sendo ao mesmo tempo considerações lógicas, cujos elementos encontram-se dispostos em um sistema, um sistema cujo conteúdo pode mudar mediante novas descobertas e ampliações técnicas para apreender a realidade, pois é um sistema que falha.

Sendo isso o cientista, pode-se concluir que, tal como a ciência não tem na sua constituição a humildade, nada no cientista indica que ele tem de ser humilde e, provavelmente, quando alguém fala em humildade científica não se apega a uma qualidade verdadeiramente científica, pode-se pensar que aceita uma influência extra científica para qualificar a acção de um cientista (ou confundindo aquele que também é cientista nas vestes de um outro status).

Humildade científica não pode ser uma consideração científica sobre o comportamento de alguém e, esse é o fundamento da presente redação: dar conta de que, embora popularizado entre os académicos, não é um conceito como o de precisão ou de objectividade científica.

Uma vez que não é uma consideração cientifica, em decorrência da própria ciência, seria correcto falar-se em objectividade ou honestidade científica, pois, havendo outro tipo de honestidade, o cientista admite as limitações do seu conhecimento por honestidade: a diferença é que pela humildade querer passar-se a ideia de que deve o cientista rebaixar-se pelo simples facto de não saber tudo, quando basta, para tal, que o cientista apenas admita que não sabe determinada perspectiva sobre um determinado assunto, aliás, nunca houve um método científico capaz de provar que a ciência sabe tudo.

Bem, poderia o leitor questionar-se, por não ter visto a honestidade entre as características da ciência na descrição acima, mas uma visão não literalista e entendedora do que seja implicação lógica saberá que, por exemplo, pela objectividade, já se quer dizer que o cientista deve transmitir apenas o que os factos são, ou seja, deve ser honesto e não subordinar suas preferências morais porquanto se propõe representar ou responder em nome da ciência.

Outro facto de relevo é que a humildade popularizou-se como “virtude” por motivo religioso, no contexto em que escrevo esta redacção, mais propriamente por motivo cristão e, diga-se isso, porque, normalmente é na Bíblia que as pessoas se baseiam para apresentar a humildade como uma qualidade a exaltar, uma virtude: a nível de algum condicionamento moral, o humilde é quem se faz pequeno.

Diante do facto de que muitos queiram fazer passar a humildade como se ela fosse o mesmo que a honestidade, pode-se entender que não se trata da mesma coisa, sabendo-se que o registo de pensadores antigos permite dar conta de que ser humilde é ser pequeno, um sentido distante do que é a honestidade:

de humus provém o adjetivo humilis, que designava, em latim, tudo o que estivesse perto do solo ou, por extensão de sentido, tudo o que tivesse pouca altura. Servia para qualificar pessoas, animais, plantas e qualquer objeto. Por exemplo, lê-se turris humilis (torre baixa) em César e domus humilis (casa térrea) em Horácio, enquanto Cícero chamava eaquae sunt humiliora às plantas de baixo porte. Virgílio, por seu lado, na Eneida (IV, 255), referindo-se a Mercúrio e comparando-o a uma ave (avi similis), diz que “voa baixo” (humilis volat) (Neves, 2017).

Humildade científica é a expressão errada e popular usada para aleatoriamente substituir aquilo a que se devesse referir por honestidade científica e a honestidade tanto é requerida dos pequenos quanto de grandes cientistas, ao passo que, a humildade científica não é requerida nem de um, nem de outro, quando as pessoas respondem nas vestes de cientistas.

Quando não se sabe de algo, quem não sabe, pode admitir pelo simples facto de que realmente não sabe – isto é honestidade; pode admitir pelo facto de querer parecer inferior – isto é humildade; ou ainda, pode fingir que sabe e tentar passar a imagem de que seja superior do que realmente é – isto é desonestidade e soberba.

 

Autor Adriano Mateia 

Referências

Francisco, W. C. (s.d.). Geocentrismo e heliocentrismo. Acesso em 23 de Março de 2023, disponível em mundoeducacao.uol.com.br: mundoeducacao.uol.com.br/geografia/geocentrismo-heliocentrismo.htm

Gomes, C. (7 de Julho de 2010). Humildade científica. Acesso em 23 de Março de 2023, disponível em psicocarlosgomes.blogspot.com: psicocarlosgomes.blogspot.com/2010/07/humildade-cientifica.html?m=1

Neves, G. (28 de Junho de 2017). A etimologia de humildade e de humilde. Acesso em 24 de Março de 2023, disponível em ciberduvidas.iscte-iul.pt: ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/a-etimologia-de-humildade-e-de-humilde/34405

O QUE É CIÊNCIA. (s.d.). O que é ciência? Acesso em 24 de Março de 2023, disponível em www.metodologiacientifica.org: www.metodologiacientifica.org/que-e-ciencia/amp/


Comentários

  1. Embora adoentado, fiz um esforço que por sinal valeu apena, pois me permitiu dissipar alguma confusão induzida pelo pensamento comum nas nossas lides “académica”. Portanto, está de parabéns o Bange, pelo artigo bem conseguido, e nós os consumidores.
    .
    Jacinto Henriques Cassanga, mas conhecido por Dinho.

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    1. Certamente jamais pensaria ser digno de tanto sacrifício. Muito obrigado mesmo pelo esforço e contaremos sempre com sugestões e críticas a fim de melhorarmos.

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  2. Passando para agradecer pela construção criteriosa deste rico conteúdo. Procurarei ler e reler, para entender da melhor forma possível... Felicitações pela produção textual Banje.

    Alves Mandele

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    1. Muito obrigado pelo feedback, querido amigo. Não hesite em sugerir ou criticar aquilo em que possamos melhorar.

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  3. O que está na base do uso do termo humildade científica ao invés de honestidade científica?

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    1. Em poucas palavras, está o facto de entender humildade como uma virtude e, transportar uma virtude para a ciência é algo bom. O mal está no facto de se ter nisso uma virtude, sem se colocar em causa se realmente é.

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